Na última quinta feira, dia 6, um jovem foi preso acusado de roubar três livros da Livraria Cultura em Salvador. Morador do bairro Paripe, localizado no subúrbio de Salvador, o jovem Alex Santana Souza de 19 anos confessou que já havia roubado outros dez livros na mesma livraria.
A notícia é bizarra, mas infelizmente não é. Fico a pensar em diversos fatores que levaram o jovem a cometer tal "crime". Por favor, não estou aqui para fazer qualquer apologia ao crime. Longe de mim! Mas fica um pergunta no ar: Até quando iremos nos chocar? Este é o retrato social em preto e branco do país em que vivemos. Fato.
Nós, blogueiros literários que levantamos todos os dias dispostos a falar, respirar e propagar a literatura sabemos qual o valor da leitura em nossas vidas. Por isso, uma notícia que deveria ser banal, pois trata-se de mais um crime como tantos outros que já estamos acostumados a conviver acaba nos chocando tanto. Independentemente da atitude errada que este jovem tenha tomado, a sua ação deve ser avaliada cautelosamente.
A primeira coisa que poderíamos dizer é: Ah! Ele não precisava roubar! Poderia ir a um sebo. Ou pegar emprestado com um amigo! Ou numa biblioteca municipal! O fato que é normalmente acabamos por julgar a atitude alheia sem o devido conhecimento da situação.
No momento em que o best-seller A menina que roubava livros toma conta do cenário com sua recente adaptação cinematográfica sendo exibida atualmente em todas as salas de cinema do país e livro sendo relançado pela Intrínseca, editora responsável pela publicação no pais, podemos fazer uma ponte entre a ficção e a realidade.
O best-seller “A menina que roubava livros” aborda de maneira direta e impactante as mazelas do nazismo, em uma época de perseguição a comunistas e jovens que se rebelavam contra o genocídio de judeus por Hitler. Na obra, uma jovem aprende a ler e se apoia nas publicações para obter um sopro de esperança no futuro. E o que isso tem a ver com o Brasil? Bem, enquanto a obra de Markus Zusak trata de uma história fictícia, aqui ela é real, e guardadas as devidas proporções, também impressiona.
Um menino foi preso em flagrante na região Nordeste quando roubava três livros, em uma livraria no Salvador Shopping. Há informações de que a fiança teria sido fixada em dois salários mínimos e o jovem teria roubado os livros por não ter dinheiro para comprá-los. Pior, ainda confessou ter levado outras obras, com conteúdo pedagógico.
No contexto social, as convenções indicam que um meliante deve ser punido, pois há a ideia de se manter um perfil corretivo, com a intenção de reeducar o indivíduo para que não volte a cometer delito. Há, ainda, o caráter exemplar, com a intenção de desincentivar outras pessoas a cometerem atos semelhantes. Apesar disso, imaginar um jovem de 19 anos preso por esse motivo, realmente é alarmante.
No livro de Zusak, lançado em 2006, é difícil não se emocionar com o drama da protagonista Liesel, uma menina que aprende a ler a duras penas e, assim, consegue sair da letargia. Com os pensamentos soltos, ela ganha um tipo de sobrevida em meio ao caos, pois amplia o vocabulário e cria uma espécie de Aurélio, usando as paredes de um sótão como o seu grande quadro negro. O drama fez tanto sucesso que ganhou até uma adaptação para o cinema, e o longa-metragem ainda pode ser conferido, pois ainda está em cartaz.
A fatalidade no caso da vida de Liesel era a de ter sido abandonada pela mãe, após ter perdido o irmão mais novo. Ela ainda tinha de viver aos sobressaltos, pois temia a aproximação de militares da Gestapo. Já o jovem que mora na Bahia, e que fora perseguido por policiais de verdade, sentiu na pele o resultado de suas escolhas. Sem apologia ao crime, longe disso. A ideia aqui é discutir a respeito da condição humana e de como a sociedade reage em um caso como esse. Afinal, do ponto de vista dos negócios, o que caberia à rede de livrarias fazer? É complicado.
A família do jovem preso teve de angariar dinheiro para pagar a fiança e tirá-lo do Complexo Penitenciário da Mata Escura. O garoto brasileiro informou que viu no furto uma das poucas opções para adquirir os livros, já que a sua mãe não tinha condições de comprá-los. E confessou ainda o roubo de cerca de dez outras obras, todas para estudar. No best-seller sobre Liesel, contado de maneira exótica por ser narrado por ninguém menos do que a morte, é difícil não se chocar. Já no drama lado B — justamente de Brasil —, a demora dos royalties do pré-sal para a Educação poderá custar muito caro, ao que parece. O preço pode ser aquele a ser pago por uma geração inteira de pessoas carentes, e cada vez mais marginalizadas pela falta de oportunidades, onde se verifica um abismo social a perder de vista.
Fonte: DCI




