Hoje é um dia muito especial para a Cachola Literária. Fechamos uma parceria com a Editora Landmark. Sendo assim,a Cachola compartilha com seus leitores os lançamentos da editora.
Hoje,acordei pensando em criar uma coluna cujo nome seria "REGISTRO".Nesse espaço pretendo postar acontecimentos da história literária do nosso país.Caberá à coluna,relembrar fatos ocorridos que digam respeito à diversos temas sobre literatura,seus gêneros literários,fatos marcantes entre outros.
Sendo assim,a primeira postagem será sobre crônicas cariocas no período tão importante que foi o Modernismo.Sigamos em frente.
No final do século XIX e nas primeiras décadas do século XX, surge uma nata de escritores, que moldam a literatura brasileira, com textos de grande relevância no processo de construção do conhecimento literário – independente da formação intelectual dos autores – buscando uma reflexão de caráter social, político e cultural.
Um dos formadores de opinião era uma dos maiores responsáveis na lapidação da língua portuguesa, Machado de Assis: “A história é uma castelã muito cheia de si e não me meto com ela. Mas a minha comadre crônica, isso é que é uma velha patusca, tanto fala como escreve, fareja todas as coisas miúdas e grandes, e põe tudo em pratos limpos”.
Seguindo nesta linha de raciocínio, encontramos outros cronistas que apresentavam suntuosidade na arte de escrever, como Lima Barreto , João do Rio e Olegário Mariano e analisados pelo crítico literário Nicolau Sevcenko [ SEVCENKO, Nicolau. Literatura como missão, Ed. Brasiliense, São Paulo, Pags 385, 1983 ].
O escritor Lima Barreto fez um raio – x das transformações sociais e os reflexos da má administração pública no Rio de Janeiro ( foto ), principalmente na primeira década do século XX, assolada pela miséria intelectual e social das camadas menos favorecidas, escondidas pelas reformas urbanas, ocorridas na antiga Capital Federal, entre 1903 e 1906.
A escrita foi sua arma, tentando marginalizar o positivismo e enaltecendo os grupos excluídos, afogada na mais profunda ignorância. O povo carioca de baixa renda, foi varrida dos cortiços e expulsa de uma forma fria pelos burgueses ou “donos do poder”. Parafraseando Carlos Drummond de Andrade, Lima Barreto foi um daqueles que fazia a seguinte pergunta na sua época. E agora José? A ironia pertinente era o fio condutor dos seus textos em 1920: “Não há dúvida alguma que o Brasil é um país muito rico. Nós que nele vivemos; não nos apercebemos bem disso, e até, ao contrário, o supomos muito pobre, pois a toda hora e todo instante, estamos vendo o governo lamentar – se que não faz isso ou não faz aquilo por falta de verba”
O outro crítico das mazelas sociais foi João do Rio, que por sinal, sofria uma forte discriminação das elites por ser mulato e homossexual, entretanto, ganhou credibilidade entre os intelectuais do seu tempo, explorando e mesclando uma linguagem moderna, e rompendo com o naturalismo e positivismo, tão presente na cultura de “Ordem e Progresso”.
O Rio de Janeiro, enquanto capital da República, passou por uma modernização, com um carimbo da cultura francesa e consolidação do capitalismo moderno, descrevendo a miséria e a agonia dos excluídos nas crônicas do escritor:
“Os delegados de polícia são de vez em quando uns homens amáveis. Esses cavalheiros chegam mesmo, ao cabo de certo tempo, a conhecer um pouco da sua profissão e um pouco do trágico horror que a miséria tece na sombra da noite por essa misteriosa cidade. Um delegado, outro dia, conversando dos aspectos sórdidos do Rio, teve a amabilidade de dizer:
- Quer vir comigo visitar esses círculos infernais?
Não sei se o delegado quis dar – me apenas a nota mundana de visitar a miséria, ou se realmente, como Virgílio, o seu desejo era guiar – me através de uns tantos círculos de pavor, que fossem tantos ensinamentos. Lembrei – me que Oscar Wilde também visitara as hospedarias de má fama e que Jean Lorrain se fazia passar aos olhos dos ingênuos, como tendo acompanhado os grãos – duques russos nas peregrinações perigosas que Goron guiava”.
Para terminar, temos um dos principais expoentes da metamorfose literária do século passado, Olegário Mariano, escreveu sobre o comportamento de gêneros, dando ênfase substancial no papel do sexo feminino, mostrando desde o comportamento fútil da mulher burguesa até o glamour da língua francesa, entre as mulheres ditas como modernas, porém o cronista revela nas entrelinhas, os estereótipos sobre a mulher com profundas raízes na cultura patriarcal, herança do Brasil Colônia, mantida na estrutura cristã da família nuclear e conservadora, citando a liberdade das mulheres e a ruptura com uma identidade retrógrada e submissa:
“Muitos são contra. Outros por medo ou covardia
Acham de pôr na idéia entusiasmos supremos.
Que a mulher magra ou gorda, alta ou baixa, seria
Um lírio ornamental no Jardim de Academus
Se é por ela afinal que todos nós vivemos,
Se é dela que nos vem o encanto da Poesia,
Por que havemos de usar processos extremos
E fechar – lhe o portão da douta Academia?
Há um obstáculo só que me parece enorme:
O “habit – vert”. Que fazer? Criar novo uniforme
Ou deixá – la à paisana o templo penetrar?
Os velhos do “Trianon” quase dizem nada
Mas preferem por certo a mulher decotada
Que uma mulher de farda é horrível de se olhar”
Enfim, estes intelectuais definidos como formadores de opinião, anteciparam e consolidaram o Modernismo de Tarsila do Amaral, Mario de Andrade, Oswald de Andrade, entre outros, com textos cirúrgicos, atingindo pontos nevrálgicos da sociedade carioca. A fome, a miséria e a mulher ocupavam os principais jornais e revistas de uma forma poética, prontamente estudada pelos cronistas, tendo como ponto de encontro a charmosa Confeitaria Colombo. Os três escritores, hoje, estão no Panteão dos imortais da literatura moderna e língua portuguesa, com textos que são verdadeiras dádivas da literatura moderna!
Escolho os meus amigos não pela pele ou por outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.
Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.
Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero resposta, quero o meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco.
Quero-os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho os meus amigos pela cara lavada e pela alma exposta.
Não quero só o ombro ou o colo, quero também a sua maior alegria.
Amigo que não ri conosco não sabe sofrer conosco.
Os meus amigos são todos assim: metade disparate, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade a sua fonte de aprendizagem, mas lutam
para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos, nem chatos
Quero-os metade infância e outra metade velhice.
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham
pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou.
Pois vendo-os loucos e santos, tolos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que a
normalidade é uma ilusão imbecil e estéril.
"Que a felicidade não dependa do tempo,
nem da paisagem, nem da sorte, nem do dinheiro.
Que ela possa vir com toda a simplicidade, de dentro para fora, de cada um para todos.
Que as pessoas saibam falar,calar e acima de tudo ouvir para que tenhamos certeza de que viver
vale a pena."




