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Cachola Literária

Uma declaração de amor ao mundo mágico dos livros


Heleno é um dramaturgo que saiu ainda jovem da sua cidade de origem, a pequena Sertânia, no interior de Pernambuco, onde vivia com os pais e os oito irmãos.
Em São Paulo conquistou prestígio, dinheiro e prêmios.
Quando o garoto de programa com quem mantinha um relacionamento é assassinado, o protagonista assume a missão de levar seu corpo até a família do rapaz cuja origem também é o interior de Pernambuco.
O acontecimento inesperado faz com que Heleno reflita sobre suas conquistas profissionais, seus amores, suas relações interpessoais e sua vida como um todo.




Por que ler Nossos Ossos?

Porque o autor é nada mais nada menos do que o gênio das palavras. Vencedor do prêmio Jabuti em 2006 com o livro Contos Negreiros lançado pela Record. Aquele tipo de escritor que arquiteta minuciosamente cada pedacinho da narrativa, que seduz e hipnotiza com sua escrita rítmica e melancólica. Um cara esquisito e desbocado que toca na ferida e sabe descrever como poucos sobre questões polêmicas? São tantas as qualidades de Marcelino como escritor que eu seria capaz de enumerá-las num livro. O fato é que toda vez que leio suas obras eu me sinto meio que fora do eixo.

Nossos Ossos conta a história de Heleno de Gusmão, dramaturgo de meia idade, natural de Sertânia, uma pequena cidade do interior de Pernambuco. Heleno é o caçula de uma família de nove filhos e que se destaca desde a infância como o artista da família. Heleno sai de Sertânia rumo à São Paulo em busca de Carlos, o seu grande amor.

Recém-chegado à São Paulo, Heleno tenta se virar como pode, se arranjando como tantos imigrantes que chegam à cidade grande com a promessa de melhorar de vida.
Longe de Carlos, Heleno irá descobrir os prazeres da vida noturna que a cidade grande pode oferecer. Freguês assíduo de inferninhos e das esquinas do sexo fácil e barato Heleno encontrará conforto nos braços de Cícero, um garoto de programa que Heleno jura ser diferente dos outros. 

Como de costume em suas narrativas, Marcelino Freire fala sobre questões tida como polêmicas, tais como o homossexualismo. Mas como ele costuma dizer em suas entrevistas ele gosta mesmo é de escrever sobre a vida e que não há nada de polêmico nisso. Por isso, se você ainda não teve a oportunidade de conhecer a maneira como o autor aborda o assunto esse é o momento.
Nossos Ossos segue a linha do romance policial, porém com suas particularidades. A começar por se caracterizar-se como uma “prosa longa”. É como se estivéssemos assistindo a um filme aonde são lançadas as imagens e suas falas correspondentes. A idealização de cada cenário até a caracterização dos personagens secundários.


A oralidade típica do nordestino está presente ao longo de toda narrativa. Assim como em seus contos Marcelino brinca com as rimas em seu primeiro romance, o autor transborda criatividade e poesia.

O jogo das palavras está presente a cada parágrafo demarcando sua importância dentro da narrativa. Não há nenhuma palavra solta. Tudo está conectado. 
A primeira impressão que se tem é de que estamos lendo um dos seus contos. A linguagem é rápida, fluída, rítmica. E por esse motivo Nossos Ossos torna-se um romance tão diferenciado. A escrita poética é quase que hipnótica.


O mote do livro se dá a partir da morte de Cícero, o Boy, assim chamado por Heleno. Boy é encontrado brutalmente assassinado e caberá a Heleno despachar o corpo do rapaz para sua cidade natal.

A trama de Marcelino apresenta diversos personagens bem característicos da noite paulistana. Entre travestis, michês, atores, putas, policiais e tantos outros personagens Nossos Ossos chama atenção do leitor para cada tipo particular. Não há simplesmente um apelo sexual em relação aos seus personagens e, sim um olhar diferenciado sobre cada um. Alguns são mais explorados propositalmente, como por exemplo, a travesti Estrela que não mede esforços para conseguir a tão sonhada prótese nos seios. 

A trajetória de Heleno até Poço do Boi, cidade do interior de Pernambuco é quase que uma odisseia. É o momento do resgate do personagem central com sua própria alma. 


O livro é dividido em duas partes: Parte Um, Parte Outro. Nota-se o jogo de palavras mais uma vez presente para confrontar o leitor. Quem conhece um pouquinho da história de Marcelino provavelmente irá se perguntar até que ponto Nossos Ossos é ficção. Pois são inúmeras as “coincidências” que unem criador(Marcelino) x criatura(Heleno). Como o próprio autor revelou Nossos Ossos não se trata de um livro autobiográfico e sim, um livro autopornográfico, já que o autor assim como seu personagem já praticaram muitas sacanagens em comum. Ta aí mais um motivo pra se esbaldar com as histórias de Marcelino Freire. Sempre tão espirituoso... aff!

De fato Marcelino cria uma narrativa fora dos padrões estilísticos. Com toda sua agilidade e perspicácia Marcelino conduz o leitor a uma experiência surreal. 

Nossos Ossos descreve a vida de um personagem que sai de sua terra natal rumo à cidade grande em busca de um grande sonho: a realização e o reconhecimento profissional. Desde o início da narrativa esta visão relativamente utópica é apresentada. O êxodo rural aqui mais uma vez é discutido e apresentado assim como acontece na vida real.


"Minha dramaturgia veio daí, hoje eu entendo, desses falecimentos contruí meus personagens errantes, desgraçados mas confiantes, touros brabos, povo que se põe ereto e ressuscitado, uma galeria teimosa de almas que moram entre a graça e a desgraça." (p.27)


O final do livro é surpreendente e deixa o gostinho de quero mais. A edição do livro está espetacular. Mais uma vez a editora Record dá um show. Capa linda, fonte agradável e revisão impecável.

Se você está à procura de algo realmente diferente, impactante e que lhe tire da tal zona de conforto, definitivamente pare de fazer tudo o que você está fazendo e busque, compre, pegue emprestado, que seja! Mas LEIA Nossos Ossos. Vocês não irão se arrepender! Mas se eu não consegui te convencer não tem problema, minha consciência tá tranquila. 

Marcelino Freire é vida. O resto é conversa fiada.



[...] quando crescer eu quero ser várias pessoas, ir fundo, escrever para me sentir, assim, o dono do mundo, o rei dos animais.”



Marcelino Freire nasceu em 20 de março de 1967 na cidade de Sertânia, Sertão de Pernambuco. Vive em São Paulo desde 1991. É autor de EraOdito (Aforismos, 2ª edição, 2002), Angu de Sangue (Contos, 2000) e BaléRalé (Contos, 2003), todos publicados pela Ateliê Editorial. Em 2002, idealizou e editou a Coleção 5 Minutinhos, inaugurando com ela o selo eraOdito editOra. É um dos editores da PS:SP, revista de prosa lançada em maio de 2003, e um dos contistas em destaque nas antologias Geração 90 (2001) e Os Transgressores (2003), publicadas pela Boitempo Editorial. Mais informações sobre o autor em marcelinofreire.wordpress.com e, também, em www.twitter.com/marcelinofreire.


Fonte Imagens: Bacanudo

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O meu medo é entrar na faculdade e tirar zero eu que nunca fui bom de matemática fraco no inglês eu que nunca gostei de química geografia e português o que é que eu faço agora hein mãe não sei. O meu medo é o preconceito e o professor ficar me perguntando o tempo inteiro por que eu não passei por que eu não passei por que eu não passei por que fiquei olhando aquela loira gostosa o que é que eu faço se ela me der bola hein mãe não sei. O meu medo é a loira gostosa ficar grávida e eu não sei como a senhora vai receber a loira gostosa lá em casa se a senhora disse um dia que eu devia olhar bem para a minha cara antes de chegar aqui com uma namorada hein mãe não sei. O meu medo também é do pai da loira gostosa e da mãe da loira gostosa e do irmão da loira gostosa no dia em que a loira gostosa me apresentar para a família como o homem da sua vida será que é verdade será que isso é felicidade hein mãe não sei. O meu medo é a situação piorar e eu não conseguir arranjar emprego nem de faxineiro nem de porteiro nem de ajudante de pedreiro e o pessoal dizer que o governo já fez o que pôde já pôde o que fez já deu a sua cota de participação hein mãe não sei. O meu medo é que mesmo com diploma debaixo do braço andando por ai desiludido e desempregado o policial me olhe de cara feia e eu acabe fazendo uma burrice sei lá uma besteira será que vou ter direito a uma cela especial hein mãe não sei. Texto extraído de seu novo livro "Contos Negreiros", Editora Record - Rio de Janeiro - 2005, pág. 97.
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Eu não sou da paz. Não sou mesmo não. Não sou. Paz é coisa de rico. Não visto camiseta nenhuma, não, senhor. Não solto pomba nenhuma, não, senhor. Não venha me pedir para eu chorar mais. Secou. A paz é uma desgraça. Uma desgraça. Carregar essa rosa. Boba na mão. Nada a ver. Vou não. Não vou fazer essa cara. Chapada. Não vou rezar. Eu é que não vou tomar a praça. Nessa multidão. A paz não resolve nada. A paz marcha. Para onde marcha? A paz fica bonita na televisão. Viu aquele ator? Se quiser, vá você, diacho. Eu é que não vou. Atirar uma lágrima. A paz é muito organizada. Muito certinha, tadinha. A paz tem hora marcada. Vem governador participar. E prefeito. E senador. E até jogador. Vou não. Não vou. A paz é perda de tempo. E o tanto que eu tenho para fazer hoje. Arroz e feijão. Arroz e feijão. Sem contar a costura. Meu juízo não está bom. A paz me deixa doente. Sabe como é? Sem disposição. Sinto muito. Sinto. A paz não vai estragar o meu domingo. A paz nunca vem aqui, no pedaço. Reparou? Fica lá. Está vendo? Um bando de gente. Dentro dessa fila demente. A paz é muito chata. A paz é uma bosta. Não fede nem cheira. A paz parece brincadeira. A paz é coisa de criança. Tá uma coisa que eu não gosto: esperança. A paz é muito falsa. A paz é uma senhora. Que nunca olhou na minha cara. Sabe a madame? A paz não mora no meu tanque. A paz é muito branca. A paz é pálida. A paz precisa de sangue. Já disse. Não quero. Não vou a nenhum passeio. A nenhuma passeata. Não saio. Não movo uma palha. Nem morta. Nem que a paz venha aqui bater na minha porta. Eu não abro. Eu não deixo entrar. A paz está proibida. A paz só aparece nessas horas. Em que a guerra é transferida. Viu? Agora é que a cidade se organiza. Para salvar a pele de quem? A minha é que não é. Rezar nesse inferno eu já rezo. Amém. Eu é que não vou acompanhar andor de ninguém. Não vou. Não vou. Sabe de uma coisa: eles que se lasquem. É. Eles que caminhem. A tarde inteira. Porque eu já cansei. Eu não tenho mais paciência. Não tenho. A paz parece que está rindo de mim. Reparou? Com todos os terços. Com todos os nervos. Dentes estridentes. Reparou? Vou fazer mais o quê, hein? Hein? Quem vai ressuscitar meu filho, o Joaquim? Eu é que não vou levar a foto do menino para ficar exibindo lá embaixo. Carregando na avenida a minha ferida. Marchar não vou, ao lado de polícia. Toda vez que vejo a foto do Joaquim, dá um nó. Uma saudade. Sabe? Uma dor na vista. Um cisco no peito. Sem fim. Ai que dor! Dor. Dor. Dor. A minha vontade é sair gritando. Urrando. Soltando tiro. Juro. Meu Jesus! Matando todo mundo. É. Todo mundo. Eu matava, pode ter certeza. A paz é que é culpada. Sabe, não sabe? A paz é que não deixa.
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Oi, eu sou Zilda Peixoto! Comando a Cachola desde 2009. Aqui compartilho um pouquinho sobre meu universo particular: resenhas de livros, séries, filmes, música boa, paixão por plantas, pugs, decoração afetiva, maternidade real e o que mais der na cachola..rs.. Sejam muito bem vindos!!!

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