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Cachola Literária

Uma declaração de amor ao mundo mágico dos livros




Ao contrário do que o título desta crônica possa sugerir, não vou falar sobre aqueles que vivem à margem da sociedade, sem trabalho, sem estudo e sem comida. Quero fazer uma homenagem aos excluídos emocionais, os que vivem sem alguém para dar as mãos no cinema, os que vivem sem alguém para telefonar no final do dia, os que vivem sem alguém com quem enroscar os pés embaixo do cobertor. São igualmente famintos, carentes de um toque no cabelo, de um olhar admirado, de um beijo longo, sem pressa pra acabar. A maioria deles são solteiros, os sem-namorado. Os que não têm com quem dividir a conta, não têm com quem dividir os problemas, com quem viajar no final de semana. É impossível ser feliz sozinho? Não, é muito possível, se isso é um desejo genuíno, uma vontade real, uma escolha. Mas se é uma fatalidade ao avesso - o amor esqueceu de acontecer - aí não tem jeito: faz falta um ombro, faz falta um corpo. E há aqueles que têm amante, marido, esposa, rolo, caso, ficante, namorado, e ainda assim é um excluído. Porque já ultrapassou a fronteira da excitação inicial, entrou pra zona de rebaixamento, onde todos os dias são iguais, todos os abraços, banais, todas as cenas, previsíveis. Não são infelizes e nem se sentem abandonados. Eles possuem um relacionamento constante, alguém para acompanhá-los nas reuniões familiares, alguém para apresentar para o patrão nas festas da empresa. Eles não estão sós, tecnicamente falando. Mas a expulsão do mundo dos apaixonados se deu há muito. Perderam a carteirinha de sócios. Não são mais bem-vindos ao clube. Como é que se sabe que é um excluído? Vejamos: você passa por um casal que está se beijando na rua - não um beijinho qualquer, mas um beijo indecente como tem que ser, que torna tudo em volta irrelevante - você inclusive. Se lhe bate uma saudade de um tempo que parece ter sido vivido antes de Cristo, se você sente uma fisgada na virilha e tem a impressão que um beijo assim é algo que jamais se repetirá em sua vida, se de certa forma este beijo que você assistiu lhe parece um ato de violência - porque lhe dói - então você está fora de combate, é um excluído. A boa notícia: você não é um sem trabalho, sem estudo e sem comida - é apenas um sem-paixão. Sua exclusão pode ser temporária, não precisa ser fatal. Menos ponderação, menos acomodação, e olha só você atualizando sua carteirinha. O clube segue de portas abertas.

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Tenho um anúncio para fazer. Doo meu apartamento. São três quartos, uma suíte, sala, cozinha, garagem. O prédio não é de luxo, mas próximo ao centro. Das janelas veem-se o norte eo sul, o nascer e o pôr-do-sol. O piso de taboão descola-se em alguns aposentos, mas reformo antes da entrega. Deixo montados móveis sob medida, quase novos. Sem ônus. Quem levar o apartamento pode, se quiser, levar também meu carro. Não tem bancos de couro, mas é "pegador", como diz a gurizada. Foi segurado há dois dias, sem multas e com os impostos quitados. Deixo na garagem do apartamento com a chave na ignição. Quem aceitar o apartamento e o automóvel poderá, se quiser, ganhar de brinde a televisão, o aparelho de som, o computador e os móveis da sala. Quase novos. Quem achar pouco modernos poderá vendê-los. Valem uns bons trocados. Doo meus bens mais valiosos. Sob uma condição. O donatário deverá receber, como seus, minha mãe, meus irmãos e meus sobrinhos. Maria Eva tem 68 anos, é analfabeta, gosta de chimarrão e fala com sotaque caboclo. A todos chama de meu "fio", faz uma "abobra" assada que é uma delícia e um feijão e arroz numa panela só de tirar o chapéu. Mas só cozinha em fogão a lenha. Detesta apartamento - Não gosto de viver empoleirada,diz -, fala sempre muito alto, tem combinações próprias para as roupas, anda de chinelo e meias em qualquer estação. Quando me visita sente saudade do escarcéu das galinhas no amanhecer. Meus irmãos são nove, gente simples. Um trabalha com fumo, outro é garçom em São Paulo, outro é tratorista... Dezoito são meus sobrinhos. Se quiseres, manda-me um e-mail. Poderás levar meus bens com o compromisso de amar meus amados com um amor igual ou maior. Além da mãe, irmão e sobrinhos, doo, ainda, meus amigos. Gente finíssima. Aceitas? Não? Já sabia. Queres o apartamento, o automóvel, meus móveis e eletrodomésticos. Meus afetos, porém, a ninguém interessam. Esta é a diferença essencial estre coisas e pessoas. As coisas servem para todos, as pessoas para poucos. Um pai chorando. A filha foi morta na própria casa ao defender a mãe dos assaltantes. Vi na televisão. Descoberta feita: eu nunca sentirei falta da moça, ele nunca recuperará a perda. "Poderiam ter levado tudo, menos minha filha", dizia o pai. "Sou um homem trabalhador. Teria as coisas novamente. Exceto ela." Não pretendo me desfazer da mãe, irmãos, sobrinhos ou amigos. Mas se fores um ladrão ou sequestrador, pense. Eles serão inúteis pra ti. Retiro a condição. Fica com as coisas. Pessoas são únicas para únicos. Não nos faltarão os mortos no Iraque, a filha ou a mãe de Antonio sequestradas, nem a estudante que se encontrou com uma bala perdida. Sabemos é o valor da casa, do carro, dos móveis dos outros. De amores alheios, nada. O que fasso com a mãe do Jõao ou do Pedroda Silva? Mãe é só uma, já tenho a minha. O mundo não melhora porque os amados mortos só deixam vazios na vida dos outros. Até o momento em que nós seremos os outros. Então, será tarde. Percebes?
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Não é falta de educação perguntar a idade a um professor, e sim seu salário. Questionar o vencimento a um educador municipal ou estadual é uma afronta, um constrangimento perante os outros. Melhor evitar; manter a amizade silenciosa, o respeito telepático, a pose compreensiva. Mas não perguntar não significa que não sei quanto ele recebe. Acabo descobrindo. É impossível não saber. Eu vejo cada centavo, cada real de seu contracheque. Toda vez que entro numa sala de professores testemunho um deles comercializando roupas, lingerie ou uma série inédita de produtos da Avon ou da Natura. Varais preenchem as cadeiras de fórmica: uma festa junina de etiquetas, desafiando a procura pelas térmicas da água quente e do café. As mesas estarão ocupadas de embalagens sendo abertas e reviradas pela ansiedade do recreio. O salário aparece nítido no desespero da muamba. A sala de convivência é casa de penhor, comércio ambulante, camelô. O professor tornou-se uma formalidade cheia de informalidades. Coleciona rifas além do seu trabalho, senão não sustenta a família, não aguenta o tranco do final do mês, não tem como fazer rancho aos filhos. É humilhante pensar que aquele que ensina não ganha o suficiente apenas para ensinar. O magistério é total ausência de exclusividade. Não é uma carreira, é uma mesada do Estado. O professor vive eternamente como um estagiário, aguardando ser efetivado e abandonar a miragem salarial. Professor usa o intervalo para completar seu orçamento. Acumula tarefas, sobrevive de reforços da receita, não respira à toa, não tem margem para incrementar seu currículo com cursos e especializações. Professor não conhece férias, mas greve. Não conhece promoção, mas reajuste. São extras e extras e extras sem fim. Bicos e bicos e bicos infinitos. É uma comissão aqui, uma porcentagem acolá. Tudo é dinheiro contadinho para as passagens. Escola é rodoviária. Nosso professor chega com uma malinha pesada. Não são livros, não são cadernos de estudo, são novidades imperdíveis e baratas para serem revendidas. Ele espalha os pertences pelo sofá e não descansa um minuto tentando convencer seus colegas a levar um dos itens. Pena que nenhum pode comprar. Porque também são professores.
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— Onde estão as crianças? — Na casa da avó. — Por que tudo isso? — É um dia especial, amor. — Nossa, querido, não esperava que você me preparasse o jantar! — Não podia ser menos. — Mas até velas, Jesus!, champanha Brut gelada! — Viu? Não esqueci, nunca poderia esquecer. — Esquecer do quê? — Não diz que esqueceu, Joana? — Não, não, imagina… (Não era aniversário dela, muito menos dele) — Ai que bom, já estava com medo de que não tivesse sido importante para você. — Claro que foi, estava fingindo surpresa. — E o que lembra daquele dia? — Ahnan. — Daquele dia, o que mais marcou você? (Não era aniversário do casamento, nem do namoro) — Ah… Seu jeito de mexer meus cabelos. — Mas você não me deixava tocar, dizia que o cabelo de prenda é como beijo de puta. — Ah, é mesmo. (Pô, aniversário de quem?) — O que não esqueço; senta, vamos comer. — Que delícia, tortei. — Deixa que sirvo; o que não esqueço é que você foi embora pensando que eu iria correr atrás. — E? — Como assim “e”? Eu corri, né? — É verdade… — Você não lembra que dia é hoje, não lembra, esqueceu de novo! — Olha, Olavo, juro que tentei, mas não fica magoado, por favor… — Como que não? Parece que somente eu dou bola para a relação. — Não é isso, tô muito cansada para forçar a cabeça. — Forçar a cabeça? Eu não mereço seu esforço, ótimo. — Não é isso, é que… — É que? — É que não queria cobrança de nada. — Comemorar agora é cobrança, onde vamos parar? — Não quero estragar, vamos lá, me perdoa. — Porra, Joana, é o dia do nosso primeiro beijo, há dez anos, na frente da banca do Mercado Público. — Como você é romântico… — E como você é insensível… — Vai começar? — Perdi a fome. Pode comer sozinha… — Não faz cena, Olavo! — E só para você saber: é também aniversário de nossa primeira briga.
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Aquele que não foi amado é o que mais ama. É o menino que nunca beijou, distraído na sala de aula, capaz de descobrir a direção do vento observando os pelos loiros do pescoço da colega. É a menina que tem uma única dúvida: até quando devo estender a língua em outra boca? Sem pais, sem professores, sem amigos para perguntar uma coisa dessas. É o jovem de topete, fingindo que não é virgem no recreio, mas que ainda dorme com o travesseiro entre as pernas. É a jovem ruiva que se excita andando de bicicleta e engolindo vento. É o velho na janela que somente conheceu putas. É a velha vizinha dele que gostaria de ter sido puta. Os tímidos, os feios, os recalcados, os lindos, os arredios, os brabos; fico pensando em quem silencia suas vontades para não incomodar e têm o silêncio cheio de tremores. Aquele que ama sem ser amado é o que mais ama. É a secretária louca pelo seu chefe e que passará a vida anotando recados da esposa dele (há o que confessa a verdade pelo ciúme, e o que guarda toda a verdade na inveja). É o adolescente que pede para o ônibus encher e assim esbarrar na moça de colar de pérola (há o que consegue puxar conversa, há o que espera ser empurrado). É o professor que teve uma única namorada e desvia o olhar dos casais se abraçando nas praças (há o que levanta a cabeça com orgulho, há o que baixa de tanto que deseja). É a faxineira que cuida do vestido da patroa, prende no cabide e não se aguenta: coloca a peça sobre os seios rapidamente temendo que alguém entre (há o que exibe seu corpo, há o que se encolhe para receber outro corpo). É a casada que anseia jantar uma noite fora para usar de novo o par de brincos do casamento. É o homem que não faz barba para esconder as acnes e as marcas da adolescência. Ai, como dói quem espera amar. Quem dedica uma vida à disciplina da paciência, torcendo para o sexo melhorar o casamento, torcendo para o casamento melhorar o sexo, torcendo para que o marido não fique bêbado ao menos uma vez, torcendo para que a esposa não reclame ao menos uma vez, dormindo e esquecendo a tristeza, acordando e repondo a esperança, aqueles que resistem e talvez envelheçam sem completar seus sonhos, que respeitam as pequenas alegrias porque podem ser as únicas, que não decidiram se diminuem a expectativa para sair da solidão ou aumentam as exigências para justificá-la. Como eu amo quem se importa em amar, apesar de tudo. Apesar de tudo.
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Trissexual As amigas se contavam tudo, tudo, do mais banal ao mais íntimo. Eram amigas desde pequenas e não passavam um dia sem se falar. Quando não se encontravam, se telefonavam. Cada uma fazia um relatório do seu dia e do seu estado, e não escapava uma ida ao super, um corrimento, uma indagação filosófica ou uma fofoca nova. Deus e todo o mundo, literalmente. Janice, Marília e Branca. Branca era a mais nova, mas já casara e já enviuvara, o que despertara um certo pânico protetor nas outras duas. Tudo acontecia rápido demais para a Branquinha, que precisava ser protegida da sua vida precipitada, da sua vida vertiginosa. Por isso Janice telefonou para Marília quando soube que a Branquinha estava namorando um homem chamado Futre, Amado Futre, Rosimar Amado Futre, e que, como se não bastasse isto, ele declarara à Branquinha que era trissexual. – Marília de Deus – disse a Janice – o que é trissexual?! – Bom… Bi é quando transa com os dois sexos. – Isso eu sei. – Tri deve ser quando transa com dois sexos e com bicho. Janice teve uma visão da Branquinha na cama com Rosimar Amado Futre, o porteiro do prédio e uma cabra. Ou um cabrito? - Bichos dos dois sexos? – E eu vou saber?! – gritou a Marília. Era preciso proteger a Branquinha. Mas do quê, exatamente? – O que é trissexual? – perguntou a Janice ao seu marido Rubião. – Ahn? – disse Rubião, acordando. Rubião dominara o truque de segurar um jornal na frente do rosto e dormir sem que a mulher notasse. Janice não entendia como um homem que lia tanto jornal podia ser tão mal informado. – O que é trissexual? – É… é… – Volta pro seu jornal, Rubião. Apesar de ser a mais moça das três, Branquinha fora a primeira a perder a virgindade. Já fizera tudo que pode ser feito sobre uma cama. Ou, no caso dela, sobre uma cama, sobre uma mesa de cozinha, jantar ou pingue-pongue, sobre um estrado, na praia, no meio do campo, uma vez até no último banco de um ônibus intermunicipal – e sempre contando tudo, tudo, às outras duas. Que também contavam tudo que lhes acontecia, só não tinham tanto para contar. A Janice contava sua vida com o Rubião, que só transava nos sábados e vésperas de feriado. A Marília, que ainda não se casara e namorava um dentista chamado João, inventava, para não pensarem que ela também não tinha uma vida sexual. Mas nem as invenções mais criativas da Marília se igualavam às experiência da Branquinha. E agora um trissexual chamado Amado Futre! Branquinha talvez estivesse indo longe demais. Era preciso proteger a Branquinha. Mas apesar de vários avisos (“Olhe lá, hein Branquinha?”) a Branquinha concordou em passar um fim de semana na serra com o Rosimar Amado Futre. E na volta, não telefonou para contar tudo, como ficara combinado. Teria lhe acontecido alguma coisa? Ela estaria num hospital, com um deslocamento, depois do que o Futre lhe fizera? Mordida por algum animal, nos arroubos da paixão? Janice e Marília não se contiveram, invadiram o apartamento de Branquinha e exigiram um relato completo. Mas cada pergunta sobre o fim de semana, Branquinha respondia “Nem te conto”. E não contou mesmo. Depois da experiência com Rosimar Amado Futre, estava tão na frente das outras que não tinham mais o que conversar. Não tinham mais pontos de referência, era isso. Marília perguntou ao namorado João, o dentista, o que era trissexual. – Tri?! – É. Tri em vez de bi. – Bi?! – Esquece, João. (Luis Fernando Veríssimo in Sexo na Cabeça – Editora Objetiva)
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Eu sou meio intelectual, meio de esquerda, por isso freqüento bares meio ruins. Não sei se você sabe, mas nós, meio intelectuais, meio de esquerda, nos julgamos a vanguarda do proletariado, há mais de cento e cinqüenta anos. (Deve ter alguma coisa de errado com uma vanguarda de mais de cento e cinqüenta anos, mas tudo bem.) No bar ruim que ando freqüentando ultimamente o proletariado atende por Betão – é o garçom, que cumprimento com um tapinha nas costas, acreditando resolver aí quinhentos anos de história. Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos ficar “amigos” do garçom, com quem falamos sobre futebol enquanto nossos amigos não chegam para falarmos de literatura. – Ô Betão, traz mais uma pra a gente – eu digo, com os cotovelos apoiados na mesa bamba de lata, e me sinto parte dessa coisa linda que é o Brasil. Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos fazer parte dessa coisa linda que é o Brasil, por isso vamos a bares ruins, que têm mais a cara do Brasil que os bares bons, onde se serve petit gâteau e não tem frango à passarinho ou carne-de-sol com macaxeira, que são os pratos tradicionais da nossa cozinha. Se bem que nós, meio intelectuais, meio de esquerda, quando convidamos uma moça para sair pela primeira vez, atacamos mais de petit gâteau do que de frango à passarinho, porque a gente gosta do Brasil e tal, mas na hora do vamos ver uma europazinha bem que ajuda. Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, gostamos do Brasil, mas muito bem diagramado. Não é qualquer Brasil. Assim como não é qualquer bar ruim. Tem que ser um bar ruim autêntico, um boteco, com mesa de lata, copo americano e, se tiver porção de carne-de-sol, uma lágrima imediatamente desponta em nossos olhos, meio de canto, meio escondida. Quando um de nós, meio intelectual, meio de esquerda, descobre um novo bar ruim que nenhum outro meio intelectuais, meio de esquerda, freqüenta, não nos contemos: ligamos pra turma inteira de meio intelectuais, meio de esquerda e decretamos que aquele lá é o nosso novo bar ruim. O problema é que aos poucos o bar ruim vai se tornando cult, vai sendo freqüentado por vários meio intelectuais, meio de esquerda e universitárias mais ou menos gostosas. Até que uma hora sai na Vejinha como ponto freqüentado por artistas, cineastas e universitários e, um belo dia, a gente chega no bar ruim e tá cheio de gente que não é nem meio intelectual nem meio de esquerda e foi lá para ver se tem mesmo artistas, cineastas e, principalmente, universitárias mais ou menos gostosas. Aí a gente diz: eu gostava disso aqui antes, quando só vinha a minha turma de meio intelectuais, meio de esquerda, as universitárias mais ou menos gostosas e uns velhos bêbados que jogavam dominó. Porque nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos dizer que freqüentávamos o bar antes de ele ficar famoso, íamos a tal praia antes de ela encher de gente, ouvíamos a banda antes de tocar na MTV. Nós gostamos dos pobres que estavam na praia antes, uns pobres que sabem subir em coqueiro e usam sandália de couro, isso a gente acha lindo, mas a gente detesta os pobres que chegam depois, de Chevette e chinelo Rider. Esse pobre não, a gente gosta do pobre autêntico, do Brasil autêntico. E a gente abomina a Vejinha, abomina mesmo, acima de tudo. Os donos dos bares ruins que a gente freqüenta se dividem em dois tipos: os que entendem a gente e os que não entendem. Os que entendem percebem qual é a nossa, mantêm o bar autenticamente ruim, chamam uns primos do cunhado para tocar samba de roda toda sexta-feira, introduzem bolinho de bacalhau no cardápio e aumentam cinqüenta por cento o preço de tudo. (Eles sacam que nós, meio intelectuais, meio de esquerda, somos meio bem de vida e nos dispomos a pagar caro por aquilo que tem cara de barato). Os donos que não entendem qual é a nossa, diante da invasão, trocam as mesas de lata por umas de fórmica imitando mármore, azulejam a parede e põem um som estéreo tocando reggae. Aí eles se dão mal, porque a gente odeia isso, a gente gosta, como já disse algumas vezes, é daquela coisa autêntica, tão Brasil, tão raiz. Não pense que é fácil ser meio intelectual, meio de esquerda em nosso país. A cada dia está mais difícil encontrar bares ruins do jeito que a gente gosta, os pobres estão todos de chinelos Rider e a Vejinha sempre alerta, pronta para encher nossos bares ruins de gente jovem e bonita e a difundir o petit gâteau pelos quatro cantos do globo. Para desespero dos meio intelectuais, meio de esquerda que, como eu, por questões ideológicas, preferem frango à passarinho e carne-de-sol com macaxeira (que é a mesma coisa que mandioca, mas é como se diz lá no Nordeste, e nós, meio intelectuais, meio de esquerda, achamos que o Nordeste é muito mais autêntico que o Sudeste e preferimos esse termo, macaxeira, que é bem mais assim Câmara Cascudo, saca?). – Ô Betão, vê uma cachaça aqui pra mim. De Salinas quais que tem? Texto gentilmente cedido pelo autor. Também parte integrante do volume As Cem Melhores Crônicas Brasileiras, organizado por Joaquim Ferreira dos Santos.
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Já deve ter acontecido com você. - Não está se lembrando de mim? Você não está se lembrando dele. Procura, freneticamente, em todas as fichas armazenadas na memória o rosto dele e o nome correspondente, e não encontra. E não há tempo para procurar no arquivo desativado. Ele está ali, na sua frente, sorrindo, os olhos iluminados, antecipando a sua resposta. Lembra ou não lembra? Neste ponto, você tem uma escolha. Há três caminhos a seguir. Um, o curto, grosso e sincero. - Não. Você não está se lembrando dele e não tem por que esconder isso. O “Não” seco pode até insinuar uma reprimenda à pergunta. Não se faz uma pergunta assim, potencialmente embaraçosa, a ninguém, meu caro. Pelo menos não entre pessoas educadas. Você devia ter vergonha. Não me lembro de você e mesmo que lembrasse não diria. Passe bem. Outro caminho, menos honesto mas igualmente razoável, é o da dissimulação. - Não me diga. Você é o... o... “Não me diga”, no caso, quer dizer “Me diga, me diga”. Você conta com a piedade dele e sabe que cedo ou tarde ele se identificará, para acabar com a sua agonia. Ou você pode dizer algo como: - Desculpe deve ser a velhice, mas... Este também é um apelo à piedade. Significa “Não torture um pobre desmemoriado, diga logo quem você é!” É uma maneira simpática de dizer que você não tem a menor idéia de quem ele é, mas que isso não se deve à insignificância dele e sim a uma deficiência de neurônios sua. E há o terceiro caminho. O menos racional e recomendável. O que leva à tragédia e à ruína. E o que, naturalmente, você escolhe. - Claro que estou me lembrando de você! Você não quer magoá-lo, é isso. Há provas estatísticas que o desejo de não magoar os outros está na origem da maioria dos desastres sociais, mas você não quer que ele pense que passou pela sua vida sem deixar um vestígio sequer. E, mesmo, depois de dizer a frase não há como recuar. Você pulou no abismo. Seja o que Deus quiser. Você ainda arremata: - Há quanto tempo! Agora tudo dependerá da reação dele. Se for um calhorda, ele o desafiará. - Então me diga quem eu sou. Neste caso você não tem outra saída senão simular um ataque cardíaco e esperar, falsamente desacordado, que a ambulância venha salvá-lo. Mas ele pode ser misericordioso e dizer apenas: - Pois é. Ou: - Bota tempo nisso. Você ganhou tempo para pesquisar melhor a memória. Quem é esse cara, meu Deus? Enquanto resgata caixotes com fichas antigas do meio da poeira e das teias de aranha do fundo do cérebro, o mantém à distância com frases neutras como “jabs” verbais. - Como cê tem passado? - Bem, bem. - Parece mentira. - Puxa. (Um colega da escola. Do serviço militar. Será um parente? Quem é esse cara, meu Deus?) Ele está falando: - Pensei que você não fosse me reconhecer... - O que é isso?! - Não, porque a gente às vezes se decepciona com as pessoas. - E eu ia esquecer você? Logo você? - As pessoas mudam. Sei lá. - Que idéia! (É o Ademar! Não, o Ademar já morreu. Você foi ao enterro dele. O... o... como era o nome dele? Tinha uma perna mecânica. Rezende! Mas como saber se ele tem uma perna mecânica? Você pode chutá-lo, amigavelmente. E se chutar a perna boa? Chuta as duas. “Que bom encontrar você!” e paf, chuta uma perna. “Que saudade!” e paf, chuta a outra. Quem é esse cara?) - É incrível como a gente perde contato. - É mesmo. Uma tentativa. É um lance arriscado, mas nesses momentos deve-se ser audacioso. - Cê tem visto alguém da velha turma? - Só o Pontes. - Velho Pontes! (Pontes. Você conhece algum Pontes? Pelo menos agora tem um nome com o qual trabalhar. Uma segunda ficha para localizar no sótão. Pontes, Pontes...) - Lembra do Croarê? - Claro! - Esse eu também encontro, às vezes, no tiro ao alvo. - Velho Croarê! (Croarê. Tiro ao alvo. Você não conhece nenhum Croarê e nunca fez tiro ao alvo. É inútil. As pistas não estão ajudando. Você decide esquecer toda a cautela e partir para um lance decisivo. Um lance de desespero. O último, antes de apelar para o enfarte.) - Rezende... - Quem? Não é ele. Pelo menos isso está esclarecido. - Não tinha um Rezende na turma? - Não me lembro. - Devo estar confundindo. Silêncio. Você sente que está prestes a ser desmascarado. - Sabe que a Ritinha casou? - Não! - Casou. - Com quem? - Acho que você não conheceu. O Bituca. Você abandonou todos os escrúpulos. Ao diabo com a cautela. Já que o vexame é inevitável, que ele seja total, arrasador. Você está tomado por uma espécie de euforia terminal. De delírio do abismo. Como que não conhece o Bituca? - Claro que conheci! Velho Bituca... - Pois casaram... É a sua chance. É a saída. Você passa ao ataque. - E não me avisaram nada?! - Bem... - Não. Espera um pouquinho. Todas essas coisas acontecendo, a Ritinha casando com o Bituca, o Croarê dando tiro, e ninguém me avisa nada?! - É que a gente perdeu contato e... - Mas o meu nome está na lista, meu querido. Era só dar um telefonema. Mandar um convite. - É... - E você ainda achava que eu não ia reconhecer você. Vocês é que esqueceram de mim! - Desculpe, Edgar. É que... - Não desculpo não. Você tem razão. As pessoas mudam... (Edgar. Ele chamou você de Edgar. Você não se chama Edgar. Ele confundiu você com outro. Ele também não tem a mínima idéia de quem você é. O melhor é acabar logo com isso. Aproveitar que ele está na defensiva. Olhar o relógio e fazer cara de “Já?!”) - Tenho que ir. Olha, foi bom ver você, viu? - Certo, Edgar. E desculpe, hein? - O que é isso? Precisamos nos ver mais seguido. - Isso. - Reunir a velha turma. - Certo. - E olha, quando falar com a Ritinha e o Mutuca... - Bituca. - E o Bituca, diz que eu mandei um beijo. Tchau, hein? - Tchau, Edgar! Ao se afastar, você ainda ouve, satisfeito, ele dizer “Grande Edgar”. Mas jura que é a última vez que fará isso. Na próxima vez que alguém lhe perguntar “Você está me reconhecendo?” não dirá nem não. Sairá correndo. Este texto está nos livros As mentiras que os homens contam, Comédias da vida privada e O suicida e O computador.
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Esta é uma história exemplar, só não está muito claro qual é o exemplo. De qualquer jeito, mantenha-a longe das crianças. Também não tem nada a ver com a crise brasileira, o apartheid, a situação na América Central ou no Oriente Médio ou a grande aventura do homem sobre a Terra. Situa-se no terreno mais baixo das pequenas aflições da classe média. Enfim. Aconteceu com um amigo meu. Fictício, claro. Ele estava voltando para casa como fazia, com fidelidade rotineira, todos os dias à mesma hora. Um homem dos seus 40 anos, naquela idade em que já sabe que nunca será o dono de um cassino em Samarkand, com diamantes nos dentes, mas ainda pode esperar algumas surpresas da vida, como ganhar na loto ou furar-lhe um pneu. Furou-lhe um pneu. Com dificuldade ele encostou o carro no meio-fio e preparou-se para a batalha contra o macaco, não um dos grandes macacos que o desafiavam no jângal dos seus sonhos de infância, mas o macaco do seu carro tamanho médio, que provavelmente não funcionaria, resignação e reticências... Conseguiu fazer o macaco funcionar, ergueu o carro, trocou o pneu e já estava fechando o porta-malas quando a sua aliança escorregou pelo dedo sujo de óleo e caiu no chão. Ele deu um passo para pegar a aliança do asfalto, mas sem querer a chutou. A aliança bateu na roda de um carro que passava e voou para um bueiro. Onde desapareceu diante dos seus olhos, nos quais ele custou a acreditar. Limpou as mãos o melhor que pôde, entrou no carro e seguiu para casa. Começou a pensar no que diria para a mulher. Imaginou a cena. Ele entrando em casa e respondendo às perguntas da mulher antes de ela fazê-las. — Você não sabe o que me aconteceu! — O quê? — Uma coisa incrível. — O quê? — Contando ninguém acredita. — Conta! — Você não nota nada de diferente em mim? Não está faltando nada? — Não. — Olhe. E ele mostraria o dedo da aliança, sem a aliança. — O que aconteceu? E ele contaria. Tudo, exatamente como acontecera. O macaco. O óleo. A aliança no asfalto. O chute involuntário. E a aliança voando para o bueiro e desaparecendo. — Que coisa - diria a mulher, calmamente. — Não é difícil de acreditar? — Não. É perfeitamente possível. — Pois é. Eu... — SEU CRETINO! — Meu bem... — Está me achando com cara de boba? De palhaça? Eu sei o que aconteceu com essa aliança. Você tirou do dedo para namorar. É ou não é? Para fazer um programa. Chega em casa a esta hora e ainda tem a cara-de-pau de inventar uma história em que só um imbecil acreditaria. — Mas, meu bem... — Eu sei onde está essa aliança. Perdida no tapete felpudo de algum motel. Dentro do ralo de alguma banheira redonda. Seu sem-vergonha! E ela sairia de casa, com as crianças, sem querer ouvir explicações. Ele chegou em casa sem dizer nada. Por que o atraso? Muito trânsito. Por que essa cara? Nada, nada. E, finalmente: — Que fim levou a sua aliança? E ele disse: — Tirei para namorar. Para fazer um programa. E perdi no motel. Pronto. Não tenho desculpas. Se você quiser encerrar nosso casamento agora, eu compreenderei. Ela fez cara de choro. Depois correu para o quarto e bateu com a porta. Dez minutos depois reapareceu. Disse que aquilo significava uma crise no casamento deles, mas que eles, com bom-senso, a venceriam. — O mais importante é que você não mentiu pra mim. E foi tratar do jantar. Texto extraído do livro "As mentiras que os homens contam", Editora Objetiva - Rio de Janeiro, 2000, pág. 37.
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Cidadão se descuidou e roubaram seu celular. Como era um executivo e não sabia mais viver sem celular, ficou furioso. Deu parte do roubo, depois teve uma idéia. Ligou para o número do telefone. Atendeu uma mulher. — Aloa. — Quem fala? — Com quem quer falar? — O dono desse telefone. — Ele não pode atender. — Quer chamá-lo, por favor? — Ele esta no banheiro. Eu posso anotar o recado? — Bate na porta e chama esse vagabundo agora. Clic. A mulher desligou. O cidadão controlou-se. Ligou de novo. — Aloa. — Escute. Desculpe o jeito que eu falei antes. Eu preciso falar com ele, viu? É urgente. — Ele já vai sair do banheiro. — Você é a... — Uma amiga. — Como é seu nome? — Quem quer saber? O cidadão inventou um nome. — Taborda. (Por que Taborda, meu Deus?) Sou primo dele. — Primo do Amleto? Amleto. O safado já tinha um nome. — É. De Quaraí. — Eu não sabia que o Amleto tinha um primo de Quaraí. — Pois é. — Carol. — Hein? — Meu nome. É Carol. — Ah. Vocês são... — Não, não. Nos conhecemos há pouco. — Escute Carol. Eu trouxe uma encomenda para o Amleto. De Quaraí. Uma pessegada, mas não me lembro do endereço. — Eu também não sei o endereço dele. — Mas vocês... — Nós estamos num motel. Este telefone é celular. — Ah. — Vem cá. Como você sabia o número do telefone dele? Ele recém-comprou. — Ele disse que comprou? — Por que? O cidadão não se conteve. — Porque ele não comprou, não. Ele roubou. Está entendendo? Roubou. De mim! — Não acredito. — Ah, não acredita? Então pergunta pra ele. Bate na porta do banheiro e pergunta. — O Amleto não roubaria um telefone do próprio primo. E Carol desligou de novo. O cidadão deixou passar um tempo, enquanto se recuperava. Depois ligou. — Aloa. — Carol, é o Tobias. — Quem? — O Taborda. Por favor, chame o Amleto. — Ele continua no banheiro. — Em que motel vocês estão? — Por que? — Carol, você parece ser uma boa moça. Eu sei que você gosta do Amleto... — Recém nos conhecemos. — Mas você simpatizou. Estou certo? Você não quer acreditar que ele seja um ladrão. Mas ele é, Carol. Enfrente a realidade. O Amleto pode Ter muitas qualidades, sei lá. Há quanto tempo vocês saem juntos? — Esta é a primeira vez. — Vocês nunca tinham se visto antes? — Já, já. Mas, assim, só conversa. — E você nem sabe o endereço dele, Carol. Na verdade você não sabe nada sobre ele. Não sabia que ele é de Quaraí. — Pensei que fosse goiano. — Ai esta, Carol. Isso diz tudo. Um cara que se faz passar por goiano... — Não, não. Eu é que pensei. — Carol, ele ainda está no banheiro? — Está. — Então sai daí, Carol. Pegue as suas coisas e saia. Esse negocio pode acabar mal. Você pode ser envolvida. — Saia daí enquanto é tempo, Carol! — Mas... — Eu sei. Você não precisa dizer. Eu sei. Você não quer acabar a amizade. Vocês se dão bem, ele é muito legal. Mas ele é um ladrão, Carol. Um bandido. Quem rouba celular é capaz de tudo. Sua vida corre perigo. — Ele esta saindo do banheiro. — Corra, Carol! Leve o telefone e corra! Daqui a pouco eu ligo para saber onde você está. Clic. Dez minutos depois, o cidadão liga de novo. — Aloa. — Carol, onde você está? — O Amleto está aqui do meu lado e pediu para lhe dizer uma coisa. — Carol, eu... — Nós conversamos e ele quer pedir desculpas a você. Diz que vai devolver o telefone, que foi só brincadeira. Jurou que não vai fazer mais isso. O cidadão engoliu a raiva. Depois de alguns segundos falou: — Como ele vai devolver o telefone? — Domingo, no almoço da tia Eloá. Diz que encontra você lá. — Carol, não... Mas Carol já tinha desligado. O cidadão precisou de mais cinco minutos para se recompor. Depois ligou outra vez. —Aloa. Pelo ruído o cidadão deduziu que ela estava dentro de um carro em movimento. — Carol, é o Torquatro. — Quem? — Não interessa! Escute aqui. Você está sendo cúmplice de um crime. Esse telefone que você tem na mão, esta me entendendo? Esse telefone que agora tem suas impressões digitais. É meu! Esse salafrário roubou meu celular! — Mas ele disse que vai devolver na... — Não existe Tia Eloá nenhuma! Eu não sou primo dele. Nem conheço esse cafajeste. Ele esta mentindo para você, Carol. — Então você também mentiu! — Carol... Clic. Cinco minutos depois, quando o cidadão se ergueu do chão, onde estivera mordendo o carpete, e ligou de novo, ouviu um "Alô" de homem. — Amleto? — Primo! Muito bem. Você conseguiu, viu? A Carol acaba de descer do carro. — Olha aqui, seu... — Você já tinha liquidado com o nosso programa no motel, o maior clima e você estragou, e agora acabou com tudo. Ela está desiludida com todos os homens, para sempre. Mandou parar o carro e desceu. Em plena Cavalhada. Parabéns primo. Você venceu. Quer saber como ela era? — Só quero meu telefone. — Morena clara. Olhos verdes. Não resistiu ao meu celular. Se não fosse o celular, ela não teria topado o programa. E se não fosse o celular, nós ainda estaríamos no motel. Como é que chama isso mesmo? Ironia do destino? — Quero meu celular de volta! — Certo, certo. Seu celular. Você tem que fechar negócios, impressionar clientes, enganar trouxas. Só o que eu queria era a Carol... — Ladrão — Executivo — Devolve meu... Clic. Cinco minutos mais tarde. Cidadão liga de novo. Telefone toca várias vezes. Atende uma voz diferente. — Ahn? — Quem fala? — É o Trola. — Como você conseguiu esse telefone? — Sei lá. Alguém jogou pela janela de um carro. Quase me acertou. — Onde você está? — Como eu estou? Bem, bem. Catando meus papéis, sabe como é. Mas eu já fui de circo. É. Capitão Trovar. Andei até pelo Paraguai. — Não quero saber de sua vida. Estou pagando uma recompensa por este telefone. Me diga onde você está que eu vou buscar. — Bem. Fora a Dalvinha, tudo bem. Sabe como é mulher. Quando nos vê por baixo, aproveita. Ontem mesmo... — Onde você está? Eu quero saber onde! — Aqui mesmo, embaixo do viaduto. De noitinha. Ela chegou com o índio e o Marvão, os três com a cara cheia, e... Extraído do livro "As Mentiras que os Homens Contam", Editora Objetiva - Rio de Janeiro, 2000, pág. 41.
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Oi, eu sou Zilda Peixoto! Comando a Cachola desde 2009. Aqui compartilho um pouquinho sobre meu universo particular: resenhas de livros, séries, filmes, música boa, paixão por plantas, pugs, decoração afetiva, maternidade real e o que mais der na cachola..rs.. Sejam muito bem vindos!!!

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